O dia em que o Muro de Berlim caiu

O dia 9 de Novembro é um muito especial para Berlim. A mais de 30 anos o Muro de Berlim caiu, após 28 anos separando Berlim e com ela toda a Alemanha em duas, a República Federal da Alemanha, no oeste, e a República Democrática Alemã (RDA), no leste.

ANTES DO MURO E SUA CONSTRUÇÃO

A Alemanha virou duas depois da Segunda Guerra Mundial, dividida entre os Aliados. Metade dela, a chamada Alemanha Ocidental, ficou sob a esfera de influência dos EUA, Inglaterra e França e a outra, a Alemanha Oriental, sob influência Soviética.

No coração da Alemanha Oriental estava Berlim, e a antiga capital também estava dividida em duas, um pequeno enclave que os EUA, a Inglaterra e a França não queriam largar de mão. Sim, a Berlim Ocidental era uma pequena ilha de influência capitalista, bem no coração da RDA.

Do final da Guerra até 1961 (antes do muro) 3 milhões de meio de alemães se refugiaram da RDA e fugiram para a Alemanha Ocidental. Vários motivos levavam pessoas a fazerem isso, desde se reunirem com familiares no lado Ocidental, a noção de que suas liberdades de expressão e políticas estavam diminuindo, falta de produtos nos mercados e até discriminação contra cristãos.

Até então era fácil sair da RDA, em Berlim bastava atravessar uma rua, de várias formas a cidade ainda funcionava como uma: pessoas moravam de um lado e trabalhavam do outro, tinham amigos e família espalhados pela cidade. Bastava ir até o Aeroporto e voar para alguma cidade na Berlim Ocidental.

Tudo mudou no dia 13 de Agosto de 1961, da noite para o dia uma força tarefa de 10,000 soldados e policiais dividiram Berlim em duas, usando barricadas, arame farpado e o próprio volume de soldados como uma barreira física. O metrô foi cancelado, ruas fechadas e com isso, amigos e famílias foram separados em um piscar de olhos.

Com o passar dos anos o muro foi crescendo, expandindo, ficando mais e mais perigoso e letal. De apenas um muro de tijolos, passou para dois, agora construído com placas de concreto de 3.6 metros de altura e um cano no topo para impedir que ele fosse escalado. No meio deles, a faixa da morte. Um total de 156.4 km ao redor de Berlim Ocidental.

E essa foi a realidade por 28 anos.


Memorial do Muro de Berlim, nele podemos ver uma réplica dos muros com a zona da morte no meio.

ÚLTIMOS DIAS

Em Maio de 1989 a Cortina de Ferro, que separava países sob influência soviética e o resto do mundo, estava começando a fraquejar. Na fronteira da Hungria com a Áustria, cercas elétricas estavam sendo removidas. Cidadãos da RDA aplicavam para vistos de viagem para a Checoslováquia e de lá iam para a Hungria, atravessando para a Áustria e então Alemanha Ocidental. Até Julho, 25.000 pessoas fizeram travessias semelhantes a essa ou pediram asilo nas embaixadas da Alemanha Ocidental em Praga ou Budapeste.

Esse processo acelerou em Setembro, quando o Ministro de Exteriores da Hungria declarou que o país não iria mais restringir movimento entre eles e a Áustria. Em apenas dois dias, 22.000 alemães orientais foram foram embora, com outras dezenas de milhares fazendo o mesmo com o passar das semanas. Na RDA, quem ficou, não se manteve calado: protestos gigantes começaram a surgir, inicialmente em Leipzig, com marchas semanais que começaram com 10.000 pessoas e chegaram a um pico de 300.000 no dia 2 de Outubro.

Em Berlim as coisas não eram diferentes, o dia 4 de Novembro ficou para sempre marcado por um protesto que juntou mais de meio milhão de pessoas em Alexanderplatz. Essa manifestação foi organizada por atores e empregados de teatro da Berlim Oriental, incluindo muitos do Berliner Ensemble, famoso teatro de Bertolt Brecht. Eles aplicaram por uma permissão oficial de manifestação e depois de muita deliberação dentro dos órgãos governamentais, eles decidiram por autorizá-la.

Durante o protesto ninguém estava pedindo pela queda do muro ou pela reunificação, os pedidos eram de democracia, liberdade de expressão e liberdade de reunião.
O governo não podia deixar de perceber e ser afetado pela força dos movimentos sociais, em Outubro o líder por décadas da RDA, Erich Honecker, largou seu cargo e foi substituído por um político mais moderado, Egon Krenz.

O governo rapidamente tomou passos para afrouxar restrições de movimento para os cidadãos, mas projetos iniciais foram rejeitados e membros do partido resignaram em protesto. Para simplificar ainda mais a lei, uma sessão liderada por Krenz no dia 9 de Novembro decidiu abolir restrições de viagem de refugiados entre o Leste e Oeste, mesmo em Berlim. Mais tarde um adendo foi incluso permitindo viagens privadas de ida e volta, tudo pronto para começar no dia seguinte, a fim de dar tempo de avisar todos os guardas de fronteira.

A QUEDA DO MURO

Mas o dia seguinte chegou mais cedo que o previsto. Em uma coletiva de imprensa, Günter Schabowski, representante do partido, estava encarregado de anunciar as mudanças, porém ele não participou da criação delas e tinha as informações escritas em um papel para serem anunciadas, sem nenhuma indicação de como repassá-las para a imprensa, nem de que tudo iria começar a valer no dia seguinte.

“Até onde eu sei, está efetivo imediatamente, sem demora.” – Günter Schabowski

A coletiva terminou as 19:00 e virou notícia na TV ocidental, que era bastante assistida no Oriente também, e a informação se espalhou rapidamente, se tornando o principal assunto do dia.

A partir daí, a noite foi tomada por Berlinenses indo em direção aos Checkpoints do Muro, exigindo passagem. Multidões gritavam enquanto os guardas, confusos, não sabiam o que fazer.

No Checkpoint de Bornholmer Brücke, o Coronel Harald Jäger foi um dos que ouviu a comitiva de imprensa e quase engasgou no seu sanduíche quando a informação de passagem livre foi anunciada. Inicialmente as ordens que ele recebeu era de deixar apenas pessoas muito briguentas passarem, sem avisar que elas jamais poderiam retornar, mas o volume de pessoas se tornou demais para conter e ele sentiu que a situação estava se tornando perigosa. As 11:30 da noite, ele ordenou que os guardas abrissem a fronteira.

Em poucas horas 20.000 alemães orientais passaram por essa ponte, do outro lado alemães ocidentais estavam esperando com flores, espumante e muita alegria, bares estavam servindo cerveja de graça para todos. Nesse momento o muro deixou de existir.

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